Às 18:00 em ponto nos reuníamos na porta, eu seus filhos, seus netos, suas memórias vivas e esperávamos por você.
Às 18:00 em ponto você virava a esquina e mesmo cansado, sorria, sorria como se nunca tivesse conhecido a tristeza na vida.
Às 18:00 em ponto meu lado poético se animava, se levantava e eu o deixava sair correndo ao seu encontro, você foi o único que consegui tal proeza em mim.
Às 18:00 em ponto tudo já estava feito, a casa arrumada, os filhos em casa e os netos de banho tomado.
Às 18:00 em ponto até os pássaros se calavam para ouvir você chegar, até o vento parava de soprar na expectativa de você aparecer e nos fazer morrer de rir, como fazia todos os dias.
Às 18:00 em ponto o mundo parava, o meu mundo parava, só para ter você ao meu lado outra vez.
Às 18:00 em ponto eu me tornava jovem outra vez, aquela jovem que você conheceu em meados de 1960.
Às 18:00 em ponto eu me esquecia da minha idade, só para ter em mim a sua idade.
Às 18:00 em ponto você me fez sentir amada outra vez, como sempre fazia quando estava perto de mim.
Às 18:00 em ponto você foi a minha alegria.
Sumiu, se foi, nos deixou, eu ainda sei que não foi porque você quis, mas a saudade aqui dentro me faz envelhecer 10 anos em 10 minutos, meus ossos estão corroendo enquanto minha alma grita por seu nome desesperadamente. Meus olhos buscam os seus, mas tudo o que vejo é o vazio, seus filhos e netos já não aparecem mais, como se só você importasse, como se eu me sentisse melhor sozinha. Você é o único com quem posso contar, já me preparei para te ver outra vez, onde quer que você esteja.
Tem uma carta em cima da mesa de jantar, não é para você, é para nossos filhos, não estou abandonando ninguém, só quero você, ainda que para isso eu precise abrir mão da minha solitária vida.
Estou pronta amor, e mais uma vez, espero você às 18:00 em ponto.

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