domingo, 26 de dezembro de 2010

Chuva, cobertor e uma xícara de chocolate quente. Por mais que eu tenha a certeza de que está tudo molhado lá fora, a minha sensação é de estar me afogando em soluços e lágrimas sem fim. Lágrimas mais secas do que o solo do sertão, lágrimas invisíveis para a maioria dos seres humanos. Me afogar em você, me afogar por não conseguir mais te sentir, por não conseguir mais respirar, não respirar você, meu ar, me chão, meu tudo.
Estar perdida no vento, no vácuo. A única coisa que eu consigo segurar é uma xícara de chocolate quente, que se esforça para me trazer de novo a vida, tudo por dentro é frio, é gélido, e nem o cobertor que se apoia em mim nessa queda sem fim é capaz de me esquentar. Me dou conta de que preciso de uma coisa, de algo que me revigore, preciso de você.


                                            

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Quando as coisas não são o que você achava que eram, quando alguém faz você acreditar em algo e depois você descobre que era o contrário, quando alguém mente e destrói seus mais profundos e puros sentimentos, quando você se encontra sozinho outra vez, olha para os lados e só tem você, você, o eco e o vazio, o solução nunca vem, a verdade aparece como a vilã e você é mais uma vez a vítima, vítima da verdade e vítima dos seus próprios sentimentos por alguém que não tem qualquer tipo de sentimento e nem respeita os seus, e pode ter certeza, é pior quando é alguém próximo, mais chegado que um irmão.


A distância que nos separa é a mesma que nos une porque mesmo sabendo que você está longe eu consigo te sentir aqui do meu lado, sinto seu cheiro sem o conhecer, ouço sua voz sem nunca ter falado com você e quando fecho os meus olhos consigo te ver, e é essa ironia que me mantém viva, que me traz alegrias pela manhã. 
Acordo e durmo tentando imaginar o que acontece por detrás do sol, tentando adivinhar se a felicidade está mesmo no final do arco-íris. Nunca saberei se não testemunhar com meus próprios olhos. 
Se eu não correr até a linha do horizonte nunca saberei se ela acaba junto aos meus olhos ou se ela me reserva alguma coisa.
Se a tempestade não vier o arco-íris não aparecerá e eu não poderei segui-lo até o fim e ver o que tem para mim, sei que não se trata de potes de ouro, vai além disso,até porque é um arco-íris que só eu vejo, porque não são todos que enfrentam essa tempestade, e quando enfrentam nunca conseguem ver o lado bom. É, eu sei que é algo complexo demais.
Eu nunca terei certeza sobre o que acontece por detrás do sol se eu tiver medo de me queimar ou preguiça de dar a volta ao mundo.
E nunca vencerei sem tentar, sem lutar. Nunca me levantarei se não cair. Nunca surpreenderei se não for subestimada e nunca serei feliz se não correr atrás do que acho que seja a felicidade para ver se realmente é.
O que me garante a conquista é uma mistura de esperança, determinação e luta, e às vezes o prêmio pela conquista não é algo e sim alguém.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010



Ele a via, pequenina, quando tampar garrafas pet, para ela,  ainda era um grande desafio.
Ele via nela o que ninguém mais via, mas era algo que ele não podia explicar e muito menos entender.
Ele estava presente no 1º e nos outros aniversários, e também no 1º dia de escola.
Ele estava por perto quando o 1º dente caiu.
Ele fazia piada dos medos, não para que ela se sentisse mal, mas para que os medos desaparecessem.
Ele brincou de faroeste com ela, ele a ensinou a conseguir o que queria.
Ele a tirou dos castigos, eles se esconderam da mãe no armário.
Ele sorriu junto dela e para ela.
Ele chorou junto dela e por ela.
Para as pequenas dificuldades ele era a solução, nas grandes escolhas e decisões ele estava lá, para dar força e confiança.
Ele fazia da sala uma grande floresta imaginária e mostrou que a imaginação era a maior arma que um ser humano pode ter.
Ele a xingava e pedia perdão. Errava e assumia, mas também corrigia os erros dela.
Ele a ensinou a contar dinheiro.
Ele exagerou nas histórias contadas.
Ele se fantasiou para ela.
Ele a ensinou o truque da moeda.
Ele a amou e a ensinou a amar.
E até chegou a pensar que já tinha ensinado tudo, mas se esqueceu de ensinar a se despedir, talvez porque ele não sabia como fazer isso. E sem a ensinar a se despedir se foi, deixando histórias, aventuras e muita saudade.
Ele foi para um lugar distante, um lugar que quando você entra, não consegue voltar, e ela ainda não o achou, não conseguiu chegar ao lugar, não por enquanto.
Mas em lembranças, em boas lembranças, ele continua dentro dela, e está sempre presente, seja numa lágrima que rola ou num sorriso que se abre. E ela nunca o deixará sumir, porque tudo o que ela tem e sabe, deve a ele, só a ele.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010




O amor deixa de ser gentil quando entra sem avisar e quando você percebe já está te fazendo sofrer.

O amor deixa de ser gentil quando te querer, te desejar já não é um sentimento voluntário.
O amor deixa de ser gentil quando nos faz chorar por alguém que já se foi, ou está longe.
O amor deixa de ser gentil quando não nos deixa respirar sem que as lembranças mais duras nos atinjam no peito fazendo doer.
O amor deixa de ser gentil quando ele nos faz perder o rumo da vida, quando te deixa confuso sobre você mesmo.
O amor deixa de ser gentil quando nos obriga a amar alguém e não faz com que esse alguém nos ame. 
O amor deixa de ser gentil quando ele começa a nos matar, e quando chega nesse ponto, os beijos, abraços e sorrisos tem gosto de solidão e morte, aí já não sabemos mais o que é o amor.

domingo, 5 de dezembro de 2010


Às vezes sinto saudades do que nunca vivi. Sinto saudades dos meus sonhos, daqueles quase tão reais quanto a cruel realidade que vivo todos os dias, aqueles sonhos bons, que só se sonha uma vez e nunca mais se esquece. Sonhos bons que te abandonam. Às vezes sinto saudades do que vivi e parece não ter sido vivido, parece só mais um sonho, e quem me dera se tivesse sido só mais um sonho, talvez o sofrimento não fosse tão severo, talvez eu já tivesse preenchido minha memória com outra coisa. Às vezes tenho vontade de reviver o que já passou, não para mudar algo, mas só para matar essa saudade que tanto me corrói, que me mata aos goles. Às vezes lembranças alegres me deixam triste por serem só mais lembranças, por não poderem ser revividas, por aumentarem a saudade dentro de mim, por anteciparem meu fim. Às vezes choro calada, por dentro de mim, e esse choro é o pior que tem, é o mais duro, o mais doloroso, e ele dói ainda mais por que quer sair e eu não consigo libertá-lo. Às vezes fico pensando em você, querendo que fosse real só por mais uns minutos, só pelo instante de um abraço de urso. Às vezes me pergunto que rumo se leva depois de se ultrapassar aquela linha que você ultrapassou antes da hora, mais cedo do que o esperado. Às vezes faço as coisas esperando que alguém me veja, alguém que já não pode mais falar que me viu, alguém que eu não sei se pode mesmo me ver. Às vezes não tenho vontade de comemorar minhas vitórias, não tenho vontade de lutar. Às vezes te vejo numa nuvem, te vejo em rostos desconhecidos e em rostos conhecidos, e tento achar alguma semelhança que traga de volta você, mas é tudo em vão, eu deveria saber que pessoas são únicas. Às vezes me pego falando em coisas que já passaram como se fossem coisas que ainda existem, esqueço que já se foram, esqueço que me deixaram. Às vezes tento copiar histórias para ver se no fim irei reencontrar os autores das histórias copiadas. Às vezes tento reviver momentos, mas é impossível revivê-los quando se falta uma parte, um pedaço deles. Às vezes penso que meu coração não vai aguentar, uma parte de mim não está mais aqui, aquela parte engraçada, espontânea e alegre se foi há quase um ano. Às vezes percebo que minha vida mudou, às vezes não quero estar aberta para mudanças. Às vezes a felicidade não chega para mim, às vezes uma sombra leva para passear aqueles que eu amo, e demora para voltar, e quando eu perceber que eles estão perto de mim outra vez, não é porque a sombra os trouxe de volta, e sim porque ela me levou também. Às vezes eu só estou esperando ela vir, porque a saudade que sinto é muito maior que minha vontade de prosseguir, e eu sei que não deveria ser assim.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Segunda Chance

 

O que você faria se tivesse mais uma chance?
 Corpo atlético, rosto bonito, pele morena, uns 17 anos. Lucas, o filho mais velho de Greg e Márcia só dava orgulho para o casal e era o super herói do único irmão, o caçula Gustavo. Tinha notas brilhantes, era muito bem educado e tinha uma incrível habilidade no basquete, esporte que muitos brasileiros não valorizam muito, mas naquela comunidade em que morava era muito praticado. Mesmo com o enorme sucesso com as garotas e os muitos amigos, Lucas colocava sempre a família em primeiro plano, seus pais sempre diziam que os verdadeiros amigos estavam em casa esperando por ele. Ele sempre sentiu um pouco de exagero na expressão que os pais usavam frequentemente, mas eles estavam mais certos do que ele podia imaginar.
 Era apenas mais uma quinta-feira, ele foi à escola e já estava em casa. Seu irmão estudava na parte da tarde, seu pai trabalhava o dia inteiro e sua mãe era uma excelente dona de casa. Ele chegou, falou sobre a escola com a mãe, Márcia, enquanto almoçava, tomou um banho e foi para a quadra do bairro com o João, seu melhor amigo. Enquanto jogavam, notou a presença de um homem nada familiar. O homem alto, de traços marcantes, acenou com a cabeça para João que respondeu ao gesto. -Não pode ser um olheiro porque não usa roupas adequadas(para um olheiro).
-Pensou. Mas continuou jogando, deixou para lá. O jogo terminou e João caminhou em direção ao homem. Lucas se sentia muito cansado, mas se sentia bem, o jogo foi bom e ele saiu vitorioso. João o chamou e o apresentou ao homem que não disse seu nome. o Homem por sua vez, apresentou-lhe um pó. Lucas sabia bem o que era, mas não sabia como reagir. Foi para casa atordoado, não falou nada com os pais desta vez e foi direto para o quarto. Dormiu.
 Outra sexta-feira comum: voltou da escola e como na quinta foi jogar basquete. o Homem estava lá novamente e continuou indo durante um certo tempo até que Lucas não aguentou a pressão:
- Qual é cara? Seja homem, só uma carrerinha vai?
- Não. Eu não tenho certeza se isso é ser homem.
- Iiih, "tá" com medo é?
Pela sua "dignidade", ele acabou experimentando, nem imaginava que era o início no fim de sua vida.
 Daí por diante, aos poucos Lucas foi mudando seu jeito: já não tirava boas notas, estava emagrecendo consideravelmente, era calado, e não tinha mais fôlego para as partidas de basquete. Agora, sua corrida era para sustentar seu vício. Vendeu suas coisas. Roubava a carteira do pai. Traficava. Fazia de tudo para conseguir dinheiro. Sua mãe, desconfiada, já sabia e temia o fim do filho.
 Lucas já não tinha o que fazer para conseguir dinheiro e se enrolou em uma dívida. Começou a ser ameaçado, embora não estivesse demonstrando muito ultimamente, ele ainda amava e muito, sua família e não queria perdê-la por um erro cometido por ele. Mas a dívida só aumentava.
 Terça-feira à tarde. Agora, Lucas só olhava os garotos jogarem. Cheirou mais um pouco antes de voltar para casa. Não viu Gustavo na porta, o que achou estranho e quando entrou, desejou nunca ter voltado para casa. Seus pais estavam mortos. Um bilhete sobre um dos corpos dizia: -Foi só um aviso, busque seu irmão na escola,e pague a dívida, se não quiser perder toda a família.- Tentou conter o desprezo. Enquanto ouvia a sirene da PM, saiu sem ser percebido e foi com o irmão para a casa de uma tia. Aos poucos, sua vida foi voltando ao normal, a dor era grande, mas ele tinha um irmão para cuidar. Parte da dívida foi quitada. Mas acabou crescendo novamente. Se sentia culpado por tornar seu irmão mais novo órfão tão cedo e em parte, tinha culpa mesmo. Levou Gustavo para a escola e resolveu andar sem rumo para esfriar a cabeça. Acabou se atrasando para pegar seu irmão, mas ao chegar na escola de Gustavo, sua preocupação com o pequeno aumentou.
 - O Guto já foi para casa, seu primo o pegou.
- Mas eles nunca buscam ele na escola.
- É tudo o que sei. Vá para casa. Provavelmente, ele estará lá.
Lucas voltou, querendo ver o irmão. Ao chegar, ele estava vivo, " Graças a Deus", ele pensou, mas viu "os cobradores da boca" na sua casa e seu corpo gelou.
-Leu nossa cartinha Lucas?
-Já estou providenciando o dinheiro.
-Queremos agora!
Enquanto um falava, outro esquentava um ferro e encostava nos braços de Gustavo. Lucas chorou pelo irmão, mas não sabia o que fazer, não podia fazer nada. Um deles pegou uma faca, esquentou-a, e começou a cortar desenhando nas costas de Gustavo. Depois apontou uma arma para Gustavo que gritou antes de morrer. Com o irmão mais novo nos braços, Lucas chorava e gritava por uma segunda chance.
 Alguém bateu na porta. Lucas acordou desesperado, suado e chorando. Olhou o relógio, 5:30 da manhã, sua mãe estava parada na porta, não entendia o que estava acontecendo. Ela o abraçou com um calor e um amor que só as mães conseguem passar e deduziu que fosse um pesadelo. Disse com uma voz doce:
-Foi só um sonho.
-Não mãe, é minha segunda chance!
Lucas prometeu para sim mesmo que iria se dedicar mais ao basquete. Jogar sem olhar em volta porque o perigo te observa.