
Carros escandalosos, pessoas cegas, autoridades falsas, crianças sábias, adultos ignorantes, sangue, dor e vinho. Minha rotina consome minhas córneas e meu tímpanos, devora meus sentimentos, devora minha alma e bebe minhas lágrimas. Noto que essa rotina tem sede, sede de mim, sede da minha expressão, sede das lágrimas que já não rolam há tempos. Minhas forças se esgotaram quando olhei dentro dos olhos de uma criança que queria o meu mais profundo sentimento, que esperava de mim a mesma coisa que eu espero das pessoas que me cercam, que estão perto de mim todos os dias. Fiquei surda com as vozes das máquinas que carregam as pessoas robotizadas para cima e para baixo, agora só ouço o relógio e aquele som irritante de buzinas. As pessoas que se movimentam sem rumo e sem direção passaram por cima do que eu sentia, e agora já não sinto mais. A cegueira invadiu o planeta, como uma epidemia, uma cegueira fatal, que impede as pessoas de olharam para dentro delas mesmas. As autoridades estão matando, matando as esperanças de pessoas que esperam o nascimento da justiça, matam a vontade de ter fome dos que fazem das ruas seus lares, matam o trabalhador e seu cansaço, sua marca registrada. As crianças já não demonstram sua sabedoria, mas isso acontece porque nós não deixamos. Elas guardam isso em pensamentos e brincadeiras silenciosas e infelizmente crescem e se esquecem do lugar onde guardaram a sabedoria por brincadeira. Crescem e viram máquinas, pessoas cegas e autoridades. Me sinto deslocada, mas tenho a constante companhia da solidão, e isso sangra, me faz ter vontade de chorar. A dor me invade, como uma onda, e arrasa tudo por dentro, arrasa e desorganiza meus pensamentos, arrasa procurando as lágrimas, procura e não acha. Eu também estou a procura delas, mas já devem estar secas. E o vinho, o vinho me mostra que ainda estou viva, tem horas que eu não sei se já dormi então o vinho me tira a dúvida, ele não cessa minha dor, não me faz ouvir as coisas nem me deixa embriagada. Mas sua cor e seu cheiro me provam que a escuridão ainda não chegou por completo e me conforta com a esperança que já está quase chegando a hora de dormir.

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